As Vidas da mesma Vida

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Por Tiago Cardoso Petreca – Facilitador CENEX.

A tarde era bastante comum, pré-pandêmica em que muitas crianças soltavam seus risos e vozes livremente enquanto o adulto ali presente buscava seu melhor para que aquelas pequenas criaturas tivessem momentos leves e relevantes.


Assim eram as tardes na escola de minha filha e aquele dia seguia como mais um dia comum. Mas, você sabe como são as crianças, presentes no momento mas sem a maturidade do discernimento, que muitas vezes falta em muitos adultos também, se jogam na oportunidade de uma gostosa brincadeira e por vez ou outra ferem, mesmo que apenas com palavras. Muitas vezes, ferem mais com palavras, com uma sinceridade ingênua e peculiar das crianças.


Ouvimos muitas destas histórias e se você é pai ou mãe certamente já ouviu também. Mas, deve imaginar que quando o objeto da brincadeira é seu próprio rebento, a ferida se expande aos corações dos pais, que sentem a dor de seus pequenos. Naquela tarde o alvo foi minha filha. Falante como é, não perde a oportunidade de colocar o que pensa para fora. Fala rápido
e muitas vezes atropela o que quer dizer. Naquele dia o que ela queria dizer era sobre um grande felino, não dos maiores, mas grande o suficiente para que o apreciemos apenas em vídeos, Safaris ou na pior das hipóteses em zoológicos. Olivia, minha filha, na torrente fala que lhe brotava da boca, ao invés de dizer Leopardo, soltou um alto e sonoro Leopoldo! Pronto!
Prato cheio para as festeiras crianças que com ela partilhavam daquele momento divertido, que assim ficou para todos, menos para ela. Ao se tornar alvo de sátiras e brincadeiras sobre sua incapacidade de expressar corretamente o nome do felino, emborcou sua coluna em tristeza apontando a todos que não mais se divertia com aquilo tudo. Durou alguns momentos, que para as crianças que logo já direcionaram sua atenção para outro tema. Olivia, contudo estava presa ao vexame de sua exposta incompetência aos olhos dos amigos. Seus ombros pesavam e indicavam que aquela garota de 6 anos estava prestes a carregar um mundo em
suas costas.

Enquanto eu ouvia sua história, estava sentado à mesa da cozinha. Aqueles pequenos olhos pediam uma explicação para a malvadeza dos amigos, que claramente ela não via em si mesma, quando era a vez dela e de seus amigos pegarem no pé de outra criança desavisada. Faz parte da maturação de cada um tomar consciência de si e dos outros e enquanto fazemos isso prestarmos atenção aos significados da vida. Isso me passava pela cabeça quando então, como que um raio de lucidez atingisse minha consciência resolvi propor à minha pequena que olha-se para a situação por outro ângulo.


Minha filha adora desenhar e criar histórias. Creio que é um traço das crianças em geral. Com isso em mente, busquei em mim mesmo um ar de espanto e descoberta, que realmente permeavam meu ser naquele momento e disse a ela: “Olivia, você não errou ao dizer Leopoldo! Você na verdade criou mais um personagem, faltou apenas avisar seus amigos sobre
isso. Leopoldo o Leopardo!” Ela levantou a cabeça, olhou nos meus olhos e perguntou:” Pai, eu criei o Leopoldo?” “Não foi este o nome que você deu a ele, mesmo sem perceber?” Disse eu.


A vitalidade retornava àquele pequeno corpinho, seu peito estufou e ela acabou de se tornar a criadora do mais novo personagem de suas histórias infantis. Daquele momento em diante, não existia mais um erro e sim uma criação, algo do que se orgulhar. Não era mais possível entristecer aquela garotinha, pois havia uma conquista alcançada.

Como pai, realmente me preocupei sobre os efeitos daquele momento de bullying sobre minha filha. Como estudei o tema dos traumas fico mais atento a estes detalhes. Então me questiono, quantos Leopardos travestidos de Leopoldos carregamos ao longo de nossas vidas que definem nossa relação com cada momento? Certamente existem traumas profundos, mas existe mais ainda significados dos quais podemos abrir mão e não o fazemos, simplesmente porque nem se quer nos damos a oportunidade. Mudar o significado daquilo que já carregamos conosco é inclusive a competência de reescrever nossa história, até mesmo aquela já escrita.

Ressignificar a vida é olhá-la de outra forma, é saber algo novo sobre aquilo que já se sabe. Frente a um mundo brutalmente voraz e ágil, nada mais sólido há, tudo se torna liquido, escorre pelos dedos na incerteza de um amanhã que cabe a nós desenharmos. Mas isso não será possível sem a capacidade de olhar diferente, de escrever novas palavras, novos significados, de transformar Leopardos em Leopoldos.

Antes do fruto vem a terra fértil que acolhe a semente e ela nutre com acolhimento e tempo. Uma jornada pela vida integrada é entender que se é tal terreno e que seus frutos irão surgir somente quando sua mente e sua alma estiverem férteis para o novo.

Trata-se de uma jornada na qual desejamos em seu final olhar para trás e dizer: “Esta é a vida que eu escolhi viver e se necessário fosse a viveria novamente!”

Uma porta se abre revelando um pouco de uma nova jornada que promete caminhos para uma vida que faça sentido, que possa fluir dentre os mais diferentes papéis que representamos. Cada um destes papéis é a oportunidade da expressão de um ser integrado em que cada conquista se revela como os frutos de alguém que um dia entendeu o que é tornar-se um
terreno fértil.

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Você pode nos enviar por e-mail dúvidas e perguntas para o Felipe, além de sugestões de assuntos para os próximos episódios do Skillˣ in PodCast. Envie para marketing@cenex.com.br

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