Três sábios perdidos na pandemia

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Published on August 1, 2020 Por Alessandra Gonzaga em https://www.linkedin.com/pulse/tr%C3%AAs-s%C3%A1bios-perdidos-na-pandemia-alessandra-gonzaga-ph-d-

“Oi, você me vê?”

Assim pode começar mais uma reunião do dia. Quem inicia a conversa alerta: vai precisar compartilhar uma tela de apresentação. Alguns segundos depois e com uma certa tensão no ar novamente a pergunta será feita: “e agora, consegue ver a segunda tela”?

Enquanto isso em outro lugar ocorre uma aula remota. Na sala virtual, câmeras são desligadas e um professor um tanto desmotivado fala sozinho. Ele termina sua aula se sentindo solitário e posta em sua rede social um post pedindo #liguesuacamera, juntando-se a outros colegas que pedem maior adesão dos estudantes no momento da aula.

Algumas horas depois, uma jovem empreendedora torce para realizar com sucesso sua primeira live sobre atitudes positivas para esse momento de pandemia. Para isso, ajeita mais uma vez o cabelo e procura, nervosa, entre tantas lentes do Instagram aberto, aquela que dirá “ao vivo”. Uma boa iluminação será necessária e por alguns minutos ela trará uma parte de sua vida e breve experiência, para os que estiverem por ali para ouvir. Mais tarde gastará algumas horas inserindo uma legenda em seu vídeo de 10 minutos, para facilitar a visualização de quem não pode abrir o áudio.

Com a live da jovem, milhões de outras estão acontecendo. Isso apenas nesse mesmo momento. Em cada uma delas chegam 10, 100, 1000 participantes? Comentários poderão ou não ser lidos. O tamanho do público e a interação depende da visibilidade e estatura midiática do quem propõe a live. Alguns são doutores e especialistas, outros são amadores cativantes, alguns tem público e tema específico, outros trazem temas de grande alcance. Quem aparece e o que é dito varia imensamente. Todos tem a chance de serem vistos e encontrar um espaço para ter algo a dizer. 

Você me escuta?

Áudio ligado, fones a postos. Mais uma reunião de time, pessoas viram bolinhas com iniciais do próprio nome em uma tela de computador. A atenção ao que é dito se perde entre outros estímulos na tela do celular. São mensagens de voz chegando pelo whats app. Na rede de amigos, um rapaz sensato escreve na descrição ao lado de sua foto: “se possível evite áudio”. Um bom colega envia áudio avisando “desculpa por estar te enviando áudio…” antes de sua mensagem de vinte segundos. Enquanto isso em um outro grupo há um bate papo de áudios que precisarão de um tempo para serem ouvidos. 

Podcasts, programas de rádio, música pelo Spotify. Áudios engraçados chegam pelo whats. Horas de conteúdo em drops de sete em sete minutos.

Milhares de lives. Dias de imagens e protagonistas que se alternam. Conteúdo gratuito de universidades. Livros para baixar. Vídeos de gatinhos. Gurus de marketing, de coaching, de vida, de negócios oferecem conselhos e lives todos os dias. E-books abertos para leitura, disponibilizados pelos autores. Grupos de estudo. Grupos de whats. Grupos temáticos.

Posso falar agora? Você me vê? Você me escuta?

Nunca tivemos tanta informação, nunca tivemos tanto conhecimento aberto, nunca falamos tanto, nunca fomos tão vistos, nunca dividimos com tanta gente o que sentimos. Nunca fizemos tanto textão. Estamos soterrados de estímulos, famintos por orientação, dispersos entre toneladas de informação, isolados em nossas divagações. Cansados, confusos. E se você chegou até aqui, te peço para respirar. Te convido a começar novamente, daqui em diante.

(…)

O que você quer ver? O que você precisa ouvir? Há quanto tempo você não se escuta?

Aí estão eles: guardando a entrada de um santuário na cidade de Nikko, no Japão.

Existem diferentes versões para a fábula dos três macacos. Conta-se que seus nomes são Mizaru (que cobre os olhos), Kikazaru (que cobre os ouvidos) e Iwazaru (que cobre a boca). A versão mais aceita é de que eles estão aí para nos lembrar: “não veja o mal, não escute o mal, não diga o mal”.

E se a gente resumisse esse ensinamento ancestral e desse uma versão emocionalmente inteligente para o que os sábios macacos tem a nos dizer?

Mizaru nos diria que a beleza está nos olhos de quem a vê e que é preciso treinar o olhar para apreciar a vida. Afinal, a busca do que é virtuoso no outro e no mundo é um mistério fascinante, não uma maratona Netflix. Desacelerar é preciso, para apreciar os momentos simples da vida com os olhos: um raio de sol que entra pela janela, um gato brincando com uma bolinha de papel, o vento que mexe com as folhas lá fora, o filho que dá seus primeiros passos.

Kikazaru iria concordar que é preciso desacelerar e lembraria da importância de se aquietar para processar tantos estímulos. São muitas vozes querendo chegar a nós e nem sabemos o que temos a dizer para cada uma delas. A quietude pode ser uma ótima conselheira. Enquanto isso, aquele vento na árvore é um som incrível de se ouvir, fazendo par à imagem, uma vez que não é invasivo e chega de forma gentil. Assim também é com o ruído da chuva no telhado. Ou os sons de alguém preparando uma comidinha na cozinha. E ainda a voz desses que nos cercam, no mundo por trás das telas.

Iwazaru veria e ouviria atentamente seus amigos e sua resposta seria um sorriso. Como sábio que é, sabe que não precisa repetir algo verdadeiro apenas para dar sua versão. Aceita seu nobre papel de ouvinte e com sua atitude nos lembra o valor da escuta ativa e generosa e a disposição de aprender pela experiência. Tantos querem falar, tantos querem estar sob os holofotes. Iwazaru nos traz sua suave presença e nos lembra um tempo em que as certezas e verdades não eram nem óbvias nem abundantes: precisavam ser descobertas.

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